Caminhos para alfabetizar
letrando.
Como já foi explicitado em
oportunidades anteriores, tempos atrás o fazer educativo era diferente e as
preocupações desse fazer também tinham outros rumos: à escola cabia uma
educação em que o que contava era o conhecimento a ser transmitido e assimilado
e a alfabetização se constituía na aquisição do alfabeto levando à habilidade
de decodificar conhecendo e articulando sons e letras (LEAL, 2003:22).
Nos dias de hoje, esse
fazer educativo precisa se situar no contexto de um novo século em uma
sociedade em constante mudança onde a todo o momento surge uma nova tecnologia
ou inovações nas já existentes. Portanto a alfabetização pautada apenas na
decodificação não responde mais os reclames dessa sociedade em movimento. É
preciso decodificar mas, ir além e legitimar conhecimento e prática de vários
tipos e portadores de textos que atendam a vários usos e funções nessa
sociedade. Não e uma coisa só e nem outra, mas uma e outra.Visto dessa forma
pode-se constatar então que “a escola hoje teria como uma de suas funções alfabetizar na perspectiva do letramento”
(MACEDO,2001:18), tendo letramento como um fenômeno que surge a partir das
mudanças e transformações sociais em torno do uso das funções da leitura e
escrita na sociedade. Fenômeno este, para além da alfabetização determinada
como domínio do código da escrita através da codificação e decodificação. Este
fenômeno para além surge da necessidade de se fazer uso adequado às mudanças em
torno da leitura e da escrita e suas práticas sociais como aprender a encontrar
a informação no material escrito, no portador do texto e posicionar
criticamente diante dele. (2001:18).
Alfabetizar na perspectiva
do letramento pode ser entendido como alfabetizar letrando,
... o ideal seria
alfabetizar letrando, ou seja: ensinar a ler a escrever no contexto das
práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se tornasse,
ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado. (SOARES, 1998:47).
Dentro disso, letramento
não e um método nem um novo modelo pedagógico. É um comportamento que precisa
ser mediado e fundamentado em métodos de ensino e estratégias e posturas
pedagógicas; é uma concepção que vai gerar atitudes e direcionamentos ao fazer
pedagógico (LEAL, 2003:23).
Para que a alfabetização
aconteça na perspectiva do letramento a escola (ou órgãos superiores) deve
possibilitar que os professores e demais profissionais da educação responsáveis
pela formação de alunos desenvolvam os saberes, habilidades e as competências
que pretendem alcançar nos alunos, ampliando o conhecimento teórico a respeito
da leitura e escrita. O professor precisa aprender para saber ensinar, isto é,
ter acesso à formação permanente e continuada e a saberes didáticos capazes de
mobilizar, nos seus alunos, o desejo de ler e de escrever (LEAL,2003:24).
Em conformidade com as considerações
acima, MACEDO reconhece que para alfabetizar
letrando “o professor desempenha um papel fundamental no processo de
apropriação, apontando e nomeando aspectos do sistema de escrita que não seriam
percebidos espontaneamente” (2001:21). Dessa forma, cai por terra a idéia de que
ninguém ensina nada a ninguém, porque espontaneamente também não se aprende; é
preciso mediação bem fundamentada com atitudes e práticas pedagógicas com
atividades bem direcionadas (2001:21).
Sabendo que o professor
exerce um papel determinante no processo de alfabetizar letrando e que essa
apropriação não ocorre da mesma forma para todas as crianças, dado ao
conhecimento prévio que trazem como bagagem e a diversidade das práticas de
ensino da leitura e escrita, é necessário que:
...
as redes de ensino enfrentem três problemas que têm evitado enfrentar: o professor
alfabetizador precisa ser um dos mais capacitados da escola (ele precisa,
portanto de uma adequada formação); precisa também ser um dos mais valorizados
da escola (ele precisa, portanto, de um estatuto diferenciado); é necessário
reorganizar a escola e os tempos destinados ao trabalho coletivo, em equipes de
professores e coordenadores (o professor não é o dono de sua sala, mas alguém
que responde, com o conjunto da escola, pela alfabetização de suas crianças)
(BATISTA, 2003:13).
Os três problemas apresentados pelo
autor são de grande relevância não só para a alfabetização, mas para todo o
processo educativo, porém para a alfabetização na perspectiva do alfabetizar
letrando, se tornam indispensáveis e urgentes. Isso se a escola pretende
continuar sendo o lugar por excelência onde o conhecimento é construído e
sistematizado.
Se o professor alfabetizador
precisa ter um saber específico e especializado na área e que o trabalho deve
ser planejado e realizado em equipe, nada mais correto que ser disponibilizado
pelas redes de ensino tempo para estudo, troca de experiência, enfim formação
continuada e educação permanente e nada mais justo que a valorização desse
profissional tanto pela rede de ensino, quanto pela escola e equipe de
gestores.
Alfabetizar letrando supõe dar aos
sujeitos alfabetizandos diferentes maneiras de ler e escrever pelo fato de que
circulam na sociedade diversos tipos e
gêneros textuais e estes contemplam variações de suportes (jornais, livros de
literatura, livros de informações, revistas diversas, vídeos, documentários) e
que, consideradas as especificidades lingüísticas e diferentes interlocuções,
também contemplem variação de mídias (rádios, internet, televisão) (LEAL,
2003:23). Essas maneiras não se resumem apenas em fazer conhecer, mas em
estimular a prática e utilização desses diversos tipos e gêneros.
Referências:
BATISTA, Antônio Augusto Gomes.
Analfabetismo na escola!? Caderno do Professor. BH. Nº11 –
dezembro de 2003.
LEAL, Leiva de Figueiredo Viana.
Alfabetização e letramento: contribuições para a prática pedagógica. Caderno
do Professor. BH. Nº11 – dezembro de 2003.
MACEDO, Maria do Socorro Alencar
Nunes. Desafios da Alfabetização na perspectiva do letramento. Presença
Pedagógica. BH: dimensão; v.7 Nº37 – jan/fev. 2001. p.17 a 23.
SOARES, Magda. Letramento: um
tema em três gêneros. BH: Autêntica, 1998. 125p.